Archive for março \01\UTC 2010

ônibus

março 1, 2010

– Não me lembro de todos os detalhes com precisão…

– Conte-me o que você sabe então.

– Esta bem, tudo começou hoje de manhã, como todos os dias eu estava indo para o meu desinteressante trabalho. Como você já deve saber eu sou funcionário do Detran e passo o dia carimbando formulários e requerimentos. É um trabalho penoso e enfiado naquele muquifo, sem ver a luz do dia e com a fumaça de cigarro pairando no ar torna o lugar um tanto insuportável. Voltando para o que aconteceu, eu estava a caminho do trabalho no meu terceiro ônibus. Enlatados comigo estavam uma pequena centena de pessoas, foi quando esmagado por bundas, braços e com pouco ar nos pulmões pude perceber na cintura de um passageiro um revólver prateado. O sol refletia na arma e a fazia brilhar o que fisgava o meu olhar sobre ela. Nossos olhos são os únicos órgãos que não sofrem pressões dentro do ônibus, são os únicos que podemos movimentar sem dificuldades. Mas enquanto os dos outros passageiros estavam à procura de espaços para respirar os meus estavam fixados na arma. Eu não tinha medo daquele homem sacar a arma e assaltar ou assassinar uma pessoa no ônibus, pois simplesmente era impossível com aquele tanto de mundo. Fruto do azar ou do poder da fascinação a constrição fez o revólver cair da cintura do homem. Amortecida pelas calças, coxas e pés a pistola atingiu o chão sem grande barulho e não chamou a atenção mesmo ricocheteando entre as já comprimidas pernas. Três paradas a frente era um ponto nevrálgico da linha, o ônibus se esvaziava pela metade, mas rapidamente outra manada vinha preencher os espaços vazios. Não era a minha parada, mas com a movimentação de pessoas eu poderia alcançar aquele objeto que tanto me fascinava. Foi assim que sucedeu, entre uma boiada e outra consegui me abaixar e pegar a arma. Ao levantar eu mal conseguia erguer a cabeça e respirar como se a passagem entre o mar de gente tivesse se fechada sobre mim. Confinado entre as peles sebosas e os cabelos oleosos pude perceber o olho do homem fixado sobre mim. Se por um instante eu tinha pensado em perfurar o meu chefe doze vezes eu não podia mais.
Aquele olho me fixava, não piscava e como uma ave de rapina a pupila se focava na presa. O olho daquele homem era mais do que uma janela para a alma, mas também um espelho da minha danação. Recuperar o revólver e matar a testemunha era o que dizia o glóbulo.
A viagem continuava e mesmo com as vibrações e instabilidades aquele olho não desgrudava em nenhum momento de mim. Cheguei ao meu ponto, durante a parte da viagem em que eu estava armado e fuzilado eu tinha chego a covarde conclusão de devolver a arma para o olho. Assim que coloquei o pé na calçada senti uma força me segurando pelo braço. Virei-me e lá estava o olho acompanhado do seu par simétrico e tão severo quanto. Apontei a arma para ele. O olho não mudou de expressão, aproximei o cano e entreguei o revólver.
Depois disso não lembro de mais nada, acordei com uma dor de cabeça aqui na delegacia. Acredito que ele me deu uma coronhada e desmaiei.

– Se esse for o caso você não deveria estar num hospital?!

– Acho que sim, não sei por que me seguras aqui!?

-Talvez tenha a ver com o seu chefe.

– O que tem ele?

– Contaram 12 furos no corpo dele.

Anúncios